Martín García – Uma ilha esquecida em Buenos Aires

Ilha Martín García

A ilha de Martín García está completando 500 anos, mas a cada dia tem menos habitantes e turistas.

Os ilhéus se queixam da escassez de barcas e da falta de serviços vitais à sobrevivência num lugar isolado.

Dos 4.700 habitantes que haviam nos anos 1950, restaram 105. 70% do turismo já foi pulverizado.

Uma ilha que dispara mil histórias

Em 1516, Juan Díaz de Solís navegou pela primeira vez nas águas do Rio da Prata. Essa expedição, que vinha descendo do Brasil, teve uma baixa importante: morreu o cozinheiro da armada e Solís decidiu desembarcar em uma ilha para dar ao funcionário um sepultamento cristão.

Essa ilha e esse cozinheiro se chamavam “Martín García”. Desde então, inúmeras histórias giraram em torno da ilha:

  • O almirante Guillermo Brown defendeu a ilha dos realistas espanhóis.
  • O presidente Sarmiento quis fundar uma tal capital de “Argirópolis”, que seria uma união de Argentina, Uruguai e Paraguai.
  • Os imigrantes faziam a quarentena na ilha antes de desembarcar na Argentina.
  • Foi refúgio de maçons e de nazistas.
  • Quatro presidentes estiveram presos na ilha.
  • Dois médicos famosos dirigiram o hospital Lazareto: Luis Agote, que desenvolveu a técnica da transfusão de sangue, e Salvador Mazza, pesquisador da Doença de Chagas
  • O presidente Menem tinha o hábito de ir até a ilha para comprar um pão doce que ainda é fabricado lá.

Ilha Martín García
São muitas histórias nestes 500 anos, mas que hoje desembocam num presente não muito feliz. Apesar de fazer parte do patrimônio histórico dos argentinos, a ilha de Martín García está à beira do abandono.

Em sua época de maior esplendor, nos anos 50, chegou a ser habitada por 4.700 pessoas, mas hoje conta com uma população estável de apenas 105.

Falta de tudo na ilha

Falta transporte, que dificulta a chegada do turismo, principal motor econômico da ilha. Martín García chegou a receber 35 mil turistas por ano, mas hoje menos de 10 mil visitam o local. A luz é cortada todas as noites, de 3 às 7 da manhã. O transporte de mercadorias também enfrenta problemas pela pouca frequência de barcas.

Ilha Martín García
Quase não há empreendimentos privados e muitas casas estão abandonadas e cobertas pela vegetação. Existe uma casa para alojar os professores que dão aulas na ilha, mas eles não podem ficar para dormir porque a casa não está em condições; assim, precisam ir e voltar no mesmo dia, o que toma umas 4 horas, dependendo do catamarã.

Ilha Martín García
Numa viagem normal até Martín García, o catamarã sai às 9 da manhã do porto de Tigre e chega às 11 ao cais (também em mau estado). Cada viagem costuma levar não mais que 4 ou 5 turistas, mais alguns poucos ilhéus e professores. Como a ilha depende da província de Buenos Aires, a maioria dos moradores são funcionários públicos mal pagos, que se encarregam da manutenção.

Professores movimentam o lugar (e despertam o potencial)

Quando os docentes chegam, de alguma forma a ilha desperta. São 32 alunos, do jardim de infância à escola secundária. Até bem pouco tempo muitas escolas da capital e de cidades próximas levavam seus alunos para um passeio/pesquisa na ilha. Em Martín García se pode aprender história e tudo relacionado com os limites geográficos, flora, fauna e astronomia. Na ilha podemos ver as estrelas muito mais claramente, já que não há iluminação intensa, como nas grandes cidades.

Ilha Martín García

Não precisa haver um boom turístico, até porque o lugar não está preparado; mas hoje em dia nem as famílias dos moradores vão visitar a ilha.

É preciso buscar um equilíbrio. Por sua condição de reserva natural e de patrimônio histórico não é permitido instalar pequenas indústrias, por exemplo. Nem reformar as casas é possível. Tudo implica em burocracia.

As exceções e a luz no fim do túnel

Os irmãos Luciano e Fernando, que chegaram à ilha porque seu pai trabalhou no serviço penitenciário, têm um bar onde se fabrica cerveja artesanal e alfajores de noz (ambos de extrema qualidade e sabor superior). Betty e Norberto tocam um armazém de produtos variados, que vende tudo fiado “menos álcool e cigarros”.

Ilha Martín García

Piki Aranda é dona do camping criado por seu pai, o morador mais antigo da ilha. Domingo Ramón Aranda tem 77 anos, chegou em 1959 para prestar o serviço militar e acabou ficando. Piki lamenta a forma que se vive hoje na ilha. “Tentamos cuidar de tudo entre nós mesmo mas é muito difícil. Nos abandonaram”. O catamarã parte às 5 da tarde e leva os docentes embora. Alguns vão ao pier para se despedir.

São os que ficam na ilha e lutam para não ser esquecidos.

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