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Quarto de García Lorca no Hotel Castelar, em Buenos Aires

Hotel Castelar: Como era o quarto de García Lorca e sua vida em Buenos Aires

Sem hóspedes por causa da pandemia do novo Corona Vírus, o Hotel Castelar fechou as portas após 90 anos de histórias clássicas.

Na época de seu projeto, o Hotel Castelar quase foi construído como um belo cinema de época, situado abaixo de um edifício de apartamentos, com vista para a Avenida de Mayo, a mais icônica das avenidas de Buenos Aires.

A hotelaria mundial teria perdido bastante.

Em forma de cinema, o Hotel Castelar não teria recebido escritores, pintores, poetas, políticos, artistas, jornalistas e celebridades de toda parte.

Mas um personagem foi bastante especial na história do hotel: o poeta Federico García Lorca, que viveu durante seis meses no Hotel Castelar.

O quarto de García Lorca

Entre residências luxuosas, escritórios de advogados, redações de jornal e cafés, a Avenida de Mayo do século XX observou personagens de todo tipo, que davam a Buenos Aires um tipo de vida próprio: alta cultura, bailes de tango e influência internacional.

Esta atmosfera atraiu um jovem Federico García Lorca, que chegou a Buenos Aires em 14 de outubro de 1933, convidado pela atriz Lola Membrives e seu esposo, o empresário espanhol Juan Reforzo, que havia contratado o poeta para apresentar a obra Bodas de Sangue e para dirigir outros dois ensaios seus: A sapateira prodigiosa e Mariana Pineda.

Placa em homenagem a García Lorca no Hotel Castelar, em Buenos Aires
O poeta andaluz viajou a Buenos Aires para ficar alguns dias e viveu por seis meses na cidade.

García Lorca acabou vivendo em Buenos Aires por seis meses, período no qual saboreou um verdadeiro boom de popularidade. O poeta espanhol teve que contratar um secretário porque as pessoas se acotovelavam na porta de seu quarto 704 do Hotel Castelar. Até aquele momento, García Lorca gozava de certo sucesso na Espanha, mas foi aclamado e reconstruiu sua história em Buenos Aires graças a uma boa quantidade de artigos e crônicas que contavam as peripécias da boemia portenha da época.

Em Buenos Aires Lorca escreveu pouco, mas vivenciou bastante a sociedade argentina. Graças ao dinheiro que ganhou em Buenos Aires pôde cortar a dependência dos pais.

Quarto de García Lorca no Hotel Castelar, em Buenos Aires
De seu quarto, Lorca escreveu a seus pais e contou que em Buenos Aires gozava da “fama de um toureiro”.

Lorca foi preso em Buenos Aires às vésperas de uma eleição, junto com o jornalista e historiador Edmundo Guibourg. Quando o delegado perguntou sobre sua profissão, Lorca disse que era “poeta”, o que gerou gargalhadas dos policiais.

Seu quarto no Hotel Castelar era a base de Lorca: ali participava do grupo de discussões Signo, no subsolo do hotel, e recitava poesias na rádio Stentor, que também ficava ali. Apesar de não haver arquivos de áudio dessas ocasiões, existe um filme mudo de 40 segundos em que podemos ver um Lorca sorridente, de olhar penetrante, engomado, cumprimentando a câmara e acompanhado de Juan Reforzo, a quem entrega um libro.

Veja o vídeo:

Pablo Neruda, Jorge Luis Borges, Oliverio Girondo, Alfonsina Storni, Raúl González Tuñón, David Siqueiros, Vicente Ruiz Huidobro e muitos outros passaram pelo subsolo do Hotel Castelar, incendiando discussões do grupo Signo. Eram longas as palestras, apresentações, desafios intelectuais e artísticos, bailes e até algumas acaloradas brigas por opiniões controversas, a pesar do grupo ter sido descrito pelo escritor Ulyses Petit de Murat como um lugar onde “reinava a paz dos poetas suaves, ensaístas amáveis e narradores tranquilos”.

Lorca era um entusiasmado participante do grupo, que costumava animar com encanto os encontros até altas madrugadas. Esse ar permissivo acabou entrando em choque com as expectativas dos donos do hotel, que começaram a cansar dos bailes e excessos, e decidiram acabar com as rodas de discussão. Hoje funciona no subsolo um dos salões que são alugados para festas e eventos

Buenos Aires tem algo vivo e pessoal, um quê de pulso dramático, alguma coisa inconfundível e original em meio a suas mil raças que atrai o viajante e que fascina. Para mim foi suave e galante, cativante e lindo, e por isso vou acenar com um lenço escuro, de onde sairá uma pomba de misteriosas palavras na hora da despedida

Escreveu García Lorca antes de partir de volta à Espanha, onde encontraria a morte pouco tempo depois.

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